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A Psicologia por trás do Magic: The Gathering
Como o Card Game Estimula o Desenvolvimento Cognitivo
Há 15 dias - 6.283 visualizações - 42 comentários
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Magic: The Gathering (também bastante conhecido como MTG) é um jogo de cartas colecionáveis de mesa criado pelo matemático, inventor e designer de jogos americano Richard Garfield. Lançado oficialmente em 1993 pela Wizards of the Coast, Magic foi o pioneiro no gênero de jogos de cartas colecionáveis[1]. O jogo também envolve estratégias, tomadas de decisão, construções de baralhos e interação constante entre os jogadores.     


A partir da psicologia cognitiva, é possível observar que a prática contínua desse jogo pode promover o desenvolvimento de habilidades mentais importantes, como a própria memória de trabalho, raciocínio lógico, capacidade de planejamento e resolução de problemas[2].


Assim, este breve artigo busca justamente discutir de forma simples como o nosso querido MTG contribui para o aprimoramento cognitivo de seus praticantes, considerando também elementos do jogo e seus processos psicológicos envolvidos.

 

 

● Magic: The Gathering e a Psicologia 

 


 

Vorthos, Steward of Myth arte de Unfinity por Caroline Gariba

 

O primeiro aspecto relevante está relacionado ao processo de tomada de decisão. Em Magic, o jogador precisa avaliar situações em constante mudança, prever ações do oponente e administrar recursos limitados, como mana e cartas na mão. De acordo com a psicologia cognitiva, essas situações estimulam funções executivas, especialmente o planejamento estratégico e o controle inibitório, que consistem em pensar antes de agir e escolher a melhor decisão possível diante de várias alternativas[2].


Outro fator importante é a memória de trabalho, responsável por manter e manipular informações mentalmente. A memória de trabalho é geralmente vista como um sistema de capacidade limitada. A primeira tentativa de quantificar esse limite foi feita por George A. Miller, em 1956, no artigo “The Magical Number Seven, Plus or Minus Two”. Onde Miller observou que os adultos conseguiam reter, em média, cerca de sete unidades de informação, chamadas de “fatias[3].


Independentemente de se tratarem de dígitos, letras, palavras ou outros tipos de elementos. Pesquisas posteriores mostraram que essa capacidade varia conforme a categoria das fatias (aproximadamente sete para dígitos, seis para letras e cinco para palavras) e também de acordo com as características específicas de cada tipo de fatia[3].


Durante uma partida, o jogador deve lembrar de cartas, regras, habilidades de criaturas, além de manter em mente o estado geral da partida. Esse exercício contínuo acaba por favorecer o fortalecimento da memória de curto prazo e da capacidade de processar informações complexas.

 


 

Zimone, Prodigio de Quandrix arte de Strixhaven por Ryan Pancoast.

 

Além disso, Magic também envolve a construção de baralhos, atividade que exige raciocínio analítico e criatividade. O jogador precisa selecionar cartas que combinem entre si e formem estratégias coerentes. Esse processo está relacionado ao pensamento hipotético-dedutivo, que consiste em formular hipóteses e testá-las por meio da prática, reforçando habilidades de experimentação e avaliação crítica[4][5].


Este método científico, conforme descrito por Mário Bunge e citado por Marconi e Lakatos (2017), é um processo racional e sistemático que visa à produção de conhecimento confiável e verificável. Ele se fundamenta em etapas bem definidas que garantem a coerência entre teoria e prática, permitindo que a ciência avance de forma estruturada[4][5].


A primeira etapa, a colocação do problema, é essencial, pois é nesse momento que se reconhecem os fatos, se descobre a existência de um problema e se formula claramente o que se deseja investigar. Sem uma boa definição do problema, qualquer pesquisa se torna vaga e imprecisa[4][5].


Em seguida, ocorre a construção de um modelo teórico, fase na qual o pesquisador seleciona os fatores relevantes e propõe hipóteses e suposições que servirão de base para a explicação do fenômeno. Essa etapa é crucial porque orienta o raciocínio científico e define os limites da investigação[4][5].


A terceira fase é a dedução de consequências particulares, em que se buscam suportes racionais e empíricos que sustentem as hipóteses formuladas. Essa dedução permite prever resultados e criar um elo lógico entre teoria e observação[4][5].


O passo seguinte, o teste das hipóteses, é o ponto central do método científico, pois é nele que as hipóteses são verificadas por meio de provas, coleta de dados e análise dos resultados. A partir daí, é possível confirmar ou refutar as proposições iniciais com base em evidências concretas[4][5].


Por fim, ocorre a adição das conclusões à teoria, momento em que se comparam os resultados obtidos com as previsões iniciais. Caso necessário, o modelo é ajustado, e novas direções de pesquisa são sugeridas[4][5].


Dessa forma, o método proposto por Bunge demonstra que a ciência não é um conjunto de verdades absolutas, mas um processo contínuo de construção e revisão do conhecimento. Seguir essas etapas de modo rigoroso é fundamental para garantir a validade das descobertas científicas e promover o avanço do saber humano[4][5].


Por fim, o aspecto social também contribui diretamente para o desenvolvimento cognitivo e emocional. As interações durante o jogo favorecem habilidades como comunicação, negociação e compreensão das intenções do outro, características associadas à inteligência emocional.


Segundo Mayer e Salovey (1997), a inteligência emocional refere-se à capacidade de perceber, avaliar e expressar emoções de forma precisa; de acessar ou gerar sentimentos que contribuam para o raciocínio; de compreender as emoções e o conhecimento emocional; e de regulá-las de modo a favorecer o desenvolvimento da própria inteligência emocional e o crescimento intelectual[6].

 


● Conclusão

 

 

Compulsive Research arte de Modern Masters 2017 por Cynthia Sheppard

 

Magic: The Gathering, mais do que um simples jogo de cartas, acaba por se configurar como um poderoso estímulo ao desenvolvimento cognitivo e emocional dos seus jogadores. Através da constante tomada de decisão, do desafio de administrar recursos limitados, da necessidade de memorizar e processar informações complexas e da construção estratégica de baralhos, o jogo ativa importantes funções cognitivas, como memória de trabalho, raciocínio lógico e planejamento estratégico. 


Além disso, a interação social promovida nas partidas favorece o desenvolvimento da inteligência emocional, aprimorando habilidades como comunicação, empatia e negociação. Os aspectos psicológicos envolvidos em Magic revelam que o jogo não só oferece uma experiência divertida, mas também um espaço dinâmico para o crescimento mental e emocional


Por fim, ao unir estes aspectos lúdicos com processos cognitivos e sociais, Magic: The Gathering nos proporciona um ambiente único para o aprimoramento das habilidades mentais, consolidando-se como uma ferramenta lúdica de impacto significativo no desenvolvimento pessoal de seus praticantes.

 


- Referências

 

1. "Análise de Magic: The Gathering Online" . Arquivado do original em 16 de julho de 2009. Acesso em 20 de outubro de 2025.


2. MATLIN, Margareth W. Psicologia cognitiva. 5 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2004. Acesso em 20 de outubro de 2025.


3. Miller, G. A. (1956). The magical number seven, plus or minus two: Some limits on our capacity for processing information. Psychological Review, 63, 81-97


4. «Método Hipotético-Dedutivo». Metodologia Científica. 24 de junho de 2019. Acesso em 20 de outubro de 2025.


5. MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria (2017). Metodologia Científica. São Paulo: Atlas


6. Mayer, J.D, Salovey, P, (1997). What is Emotional Intelligence? In P.Salovey e D. J. Sluyter (Eds.) Emotional Development and Emotional Intelligence. New York: Basic Books.

Aylan Martinho Pereira da Silv ( AylanBr)
Aylan M., entusiasta das Ciências Exatas e apaixonado por cardgames, com destaque em Magic: The Gathering, além de apreciador de um bom café expresso.
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Comentários
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- 21/11/2025 15:21:24
Eu achei este artigo muito bom mas um adendo, eu entendi por que ja estudo psicologia e estou familiarizado com os termos, talvez para o senso comum seja mais dificil de interpretar. Enfim muito bom, poste mais e aprimore seus estudos quero ver mais artigos dessa tematica com viés cientifico por ai.
(Quote)
- 20/11/2025 20:55:45

Opa Rafael, tudo bem? Primeiramente muito obrigado pelo comentário, de verdade! Fico muito feliz que você tenha percebido a intenção do meu texto, que foi aproximar alguns conceitos de psicologia cognitiva de um modo acessível, especialmente para quem não tem contato prévio com a área, oque infelizmente não foi possível atingir com tanta totalidade que eu desejava, falo isso ao conferir alguns comentários não tão bem receptivos abaixo.
E você Rafael apontou algo muito importante: realmente abracei mais tópicos do que cabia no formato, um gafe que infelizmente custou caro. A transição entre memória de trabalho, método científico e inteligência emocional acabou ficando mais ampla do que o ideal, e faz sentido o que você disse sobre alguns trechos se afastarem do Magic. Como estou no começo da minha trajetória de escrita técnica, ainda estou aprendendo a equilibrar profundidade, clareza e recorte, e seu comentário ajuda muito nessa direção.
A ideia do resumo inicial, indicando público-alvo, foco e limites do artigo, foi excelente. Isso realmente ajustaria a expectativa de quem espera algo mais técnico ou mais analítico, e evitaria a sensação de "abrangência demais" para alguns leitores, que também foi o caso ao analisarmos alguns comentários.
Também gostei muito da sua observação sobre o debate "Magic só te deixa bom em Magic". Era exatamente nessa linha que eu queria ir, não que o jogo ensine habilidades externas por si só, mas que a reflexão sobre o processo, a metacognição, pode abrir espaço para conexões mais amplas. Você formulou isso de um jeito muito mais claro, obrigado por isso.
Eu concordo totalmente que cada um dos temas renderia artigos separados. Inclusive já estou planejando explorar recortes mais específicos nos próximos textos, justamente para aprofundar melhor cada ponto sem dispersar.
Agradeço demais pela leitura cuidadosa e pelo feedback construtivo. Comentários assim fazem muita diferença pra quem está começando, Abraços Rafa!

(Quote)
- 20/11/2025 20:41:56

Muitíssimo obrigado Wesley, Pode ter certeza que trarei sim! Abraços.

(Quote)
- 20/11/2025 20:40:08


Opa, obrigado pela análise sincera, de verdade. Fico muito feliz que você tenha optado por contribuir de forma construtiva por aqui nos comentários.
Sobre o que você trouxe em relação ao casual vs competitivo, achei excelente o ponto de discussão. Essa divisão realmente muda completamente o peso cognitivo e emocional do nosso jogo. No casual, o espaço para criatividade, risco e improviso é enorme. Já no competitivo, como você descreveu, a cabeça corre em três trilhas simultâneas: estado da mesa, opções próprias e respostas possíveis dos outros. Isso exige uma atenção dividida, memória de curto prazo, leitura situacional e previsão de cenários, é literalmente uma resolução de problemas sob pressão.
E a parte emocional que você mencionou é também crucial. Pois a diferença entre jogar solto no casual e travado no competitivo ilustra bem como a cognição é modulada pelo ambiente, propósito e consequência. Não é só "saber jogar", é lidar com expectativa, risco e autocobrança.
O que você descreveu sobre o "e se…" também é puro ouro: esse pós-game pesado é um campo riquíssimo pra análise de tomada de decisão, e é exatamente esse tipo de nuance que eu quero trazer mais nos próximos textos.
E claro, sua frase sobre ser "forjado na Bigorna da Desgraça" merece virar epígrafe de algum artigo futuro Hahahahahahah.
Valeu demais pelo comentário e pela profundidade. Vou levar vários desses pontos pra frente!

(Quote)
- 20/11/2025 19:41:41
Condordo. E cabe um "e daí?" daqueles bem grandes, pois é a obviedade de praticamente todo jogo. E, a partir daí, vamos para onde? Usar como recursos didáticos ou colocar com consultórios? Hmmmm, naaahhhh