Nêmesis - Mensageiro
13/05/2018 10:00 / 2,159 visualizações / 8 comentários
 
Nêmesis ´Capítulo 3

Mensageiro
 
 

Greven puxou sua espada e disse para Crovax: “ou você é um louco ou mentiroso. Em todo caso, sua vida está acabada. Pegue-no!”

Os guardas pegaram suas lanças e atacaram. Crovax nem se mexeu para evitar o ataque, mas quando eles estavam a dez passos dele, de repente, o piso negro tornou-se mole como geleia. Os soldados ficaram presos, com os pés afundados no chão.
 
Crovax comandava a rochafluente.
 
Dando a volta na tropa, Greven avançou. Crovax sacou sua espada, desejando enfrentar o brutamontes. Ele tinha alguma influência sobre a rochafluente, mas aquilo não fora suficiente para convencer Greven.
 
Será que ele conseguiria comandar o implante espinhal de Greven assim como os evincares anteriores?
 
Greven era um guerreiro feroz. Ele deu um grande golpe contra Crovax, que mal conseguiu apará-lo. O guerreiro monstruoso deu-lhe uma série de golpes na cabeça, estômago e pernas. Ele deu uma guinada, mas no último segundo, Crovax bloqueou o golpe. Com os músculos saltando, Greven trouxe sua lâmina contra toda a resistência de seu oponente. A espada de rochafluente tentou aparar o golpe, mas foi jogada para longe, parando aos pés de Ertai. Para surpresa do jovem mago, a lâmina criou pequenas pernas, se levantou e voltou marchando para a mão de Crovax.
 
Segurando a espada com ambas as mãos, Greven investiu para um golpe fatal. A rochafluente soltou os soldados, se ajuntou e formou um poderoso escudo na frente de Crovax. A lâmina bateu contra a parede com toda força. Greven grunhiu e partiu para recuperar sua espada, enquanto Crovax procurava por alguma arma para acertá-lo aproveitando que o comandante estava distraído.
 

Três tons profundos e uniformes ecoaram pelo vasto espaço.

Uma onda de choque acertou os Salões Oníricos. Cortesões caíram no chão, Ertai foi lançado com o cara no piso, mas para sua surpresa, seus dedos sondaram as partes rasas da rochafluente. Os soldados não puderam manter a formação, o escudo de rochafluente de Crovax se desfez, mas Greven ficou imóvel. O tremendo deslocamento de ar somente significava uma coisa: o emissário estava chegando.
 
Caindo pelo ar, no centro do corredor, veio um grande cubo cinza. Ele aumentava de tamanho enquanto descia. Os soldados e cortesões se esconderam diante de tal poder, mas Crovax e Greven mantiveram suas posições. Ertai ergueu sua cabeça para tentar ver o que estava acontecendo.
O cubo se estabilizou, flutuando alguns metros acima do chão. Estava fervendo, a superfície enevoada não revelava detalhes ou sua composição. Atrás do veio cinzento não havia movimento. Solavancos ondulavam na superfície do cubo. O gongo fantasma tocou mais três vezes e uma mão apareceu através do cubo – ágil, delgada, com uma manopla negra. Seus membros começaram a aparecer e, então, em um simples movimento, o emissário atravessou o portal e adentrou os Salões Oníricos.
 
 
A aparência do emissário fora ofuscada pela de Greven.

Ele era pouca coisa mais alta do que Ertai e tinha o rosto escondido por um elmo. O emissário ergueu sua mão, não em saudação, mas para acionar um dispositivo Phyrexiano. Gorjeando, o dispositivo fez o portal se encolher e, enquanto diminuía de tamanho, ele cuspiu quatro caixas pretas de metal. O cubo diminuiu até ficar do tamanho de uma noz. Flutuando no ar, o cubo desapareceu e foi parar no cinto do emissário. Soldados e cortesões tentaram mostrar alguma aparência digna. O mago tolariano ficou de pé, penteando distraidamente seus cabelos com seus dedos.
 
O emissário permanecia imóvel, e por um momento, Ertai pensou que os Phyrexianos haviam enviado uma criatura semelhante a Karn. Lentamente, o estranho ergueu suas mãos até o elmo que deslizou fazendo um silvo audível.
 
“É uma garota!” — Ertai disse.

“Silêncio!” — disse Greven. Ele se ajoelhou. “Todos saúdem o plenipotenciário do Supremo Mestre de Phyrexia!”
 
Com muito farfalhar de roupas e rangido de metal, a delegação se ajoelhou diante da emissária. Ertai foi o primeiro a ficar de pé. Ele queria uma visão melhor dessa garota de outro plano. Ela parecia com os elfos de Dominária: orelhas pontudas, bochechas achatadas de um elfo puro sangue e com olhos coloridos. Sua armadura era de preto fosco e onde ela terminava, sua pele pálida mostrava linhas cruzadas. Apesar da presença de Phyrexia que ela transmitia, a emissária não parecia ter muito mais do que a idade de Ertai – dezenove anos.

Crovax se curvou também. “Saudações, Excelência. Bem-vinda a Rath.”
 
Olhando para ele sem expressão, Belbe perguntou: “quem é você?”
 
Ertai deu uma risadinha. Com um aceno da cabeça, Greven ordenou que dois soldados segurassem o mago.
 
“Eu sou Crovax, o novo Evincar de Rath.”
 
“Eu ouvi isso. Você está passando dos limites. Estou aqui para apontar o novo governador, e não te escolhi ainda.”
 
Crovax se retraiu visivelmente.
 
Greven deu um passo à frente e se apresentou como comandante das forças da Cidadela e capitão da nau voadora, Predador. Ela respondeu com uma voz chata e sem emoção. Os membros da corte, liderados por Dorian il-Dal, fizeram suas saudações e receberam o mesmo tipo de resposta: seca e morta. Enquanto eles a bajulavam, jurando lealdade a boca inquieta de Ertai se abriu outra vez.
 
“E eu?”

“Quem é esse?”
 
“Ninguém, Excelência. Um prisioneiro de guerra.”
 
Nem Belbe nem Crovax entendiam por que Greven trouxera um prisioneiro de guerra para os Salões Oníricos. Sob a alegação de que o jovem possuía talento para magia, Greven o levara para contemplar a chegada do poder de Phyrexia. A ideia não foi aceita e a ordem foi direta: Ertai devia ser levado e ser interrogado pelo comandante.

Mas antes de ir, Ertai disse que Belbe ainda não tinha dito seu nome.

“Uma pergunta lógica. Meu nome é Belbe.”
 
“O meu é Ertai e eu fui o primeiro da minha turma-”
 
“Levem-no! Eu mesmo o interrogarei.”
 
Crovax estendeu o braço para Belbe, uma tentativa frustrada de ser galanteador. Ela o ignorou e ordenou que sua bagagem fosse levada para os aposentos do evincar. O problema era que aquilo era serviço para moggs e como não havia nenhum por ali, então Greven decidiu que os guardas deviam levar as malas. Foi nesse momento que Crovax deu uma sugestão inusitada. Por que não mandar que os cortesões levassem a bagagem?
Dorian retrucou, alegando que aquilo era trabalho de operadores, porém Belbe ordenou que obedecessem a Crovax. Não havia muito sentido naquilo, afinal ele era um intruso tanto quanto Ertai e que também devia estar em uma cela. Mas Belbe explicou que, apesar de ele não ser evincar ainda, ele havia sido favorecido pelos suseranos. Enquanto as ordens dele não contradissessem as dela, ele deveria ser obedecido.

Um sorriso sombrio percorreu o rosto de Crovax.
 
Os cortesões se mexeram para pegar as caixas de metal que tinham quase dois metros de comprimento. Alguns dos cortesões eram velhos e sofreram para erguer e colocar as caixas sobre os ombros. Um deles não aguentou o peso e caiu, fazendo com que a pesada caixa caísse sobre o rosto, o esmagando. O sangue escorreu pelo piso. Dorian pegou o pulso do homem e o ergueu, constatando que estava morto. Crovax caminhou pelo corpo e, com um pensamento, fez com que a rochafluente se mexesse e levasse as caixas de metal.
 

 

Erguendo-se com lágrimas nos olhos, Dorian indagou porque ele não ordenou antes que a rochafluente levasse todas as caixas. O pretenso evincar o ergueu pelo colarinho: “provem sua lealdade aos suseranos carregando a bagagem de Sua Excelência! Todos vocês!”

Sem retrucar contra o insano Crovax, os cortesões obedeceram. O velho morto fora camareiro antes de Dorian e era seu pai.
 
Belbe partiu para os aposentos do evincar sem esperar pela bagagem e ordenou que Crovax fosse vistoriar as forças de Rath. Se ele fosse comandá-las, devia se familiarizar com as tropas, afinal, eles recentemente sofreram uma derrota nas mãos da tripulação de Gerrard. Nasser confirmou a informação quando narrou o ataque à Cidadela pelos rebeldes e pelo navio de guerra.

Após a partida de Belbe, Crovax conversou com o sargento Nasser. Aparentemente, Greven não apreciava muito seu trabalho, pois sete anos se passaram e a única coisa que ele comandava era uma tropa de guardas do palácio.
 
Isso teria que ser corrigido.
 
O som dos passos diminuiu e Belbe se sentiu grata por estar sozinha outra vez. Embora estivesse em Rath por pouco mais do que uma hora, a experiência a machucara. A companhia dos habitantes da Cidadela era sufocante. Greven, em sua aparência grotesca, os soldados envoltos em armaduras que faziam parecer menos vivos do que os sacerdotes Phyrexianos que ela encontrara, as emoções e lágrimas nos olhos de Dorian e os cortesões, sempre prontos e ansiosos de braços abertos...
 

Seu mestre, Abcal-dro, nunca disse como eram as criaturas daqui. Dentre elas, somente duas a interessavam e essas eram o jovem Ertai e o sombrio Crovax. Eles eram diferentes. Ertai, embora estivesse algemado, irradiava extrema confiança. Crovax era perigoso. Somente de olhar para ele, podia-se perceber que esteve no Quarta Esfera dos artífices e recebera melhorias.

Ela caminhou direto para o elevador que a levaria para seus aposentos. Planos detalhados da estrutura da Fortaleza foram implantados nela quando ela fora criada mas, mesmo assim, conhecendo cada estrutura e viga de metal, o lugar era estranho, pois ela sabia que nunca havia estado aqui antes.
A Cidadela era antiga e seus ocupantes a alteraram, decoraram e a embelezaram de acordo com suas vontades. Ela passou pelos andares que refletiam os gostos de seis evincares, cada novo mestre tentava sobrepor seus predecessores. Uma voz estridente anunciava cada andar enquanto passavam. “Andar de observação... aposentos dos cortesões... reparo do elevador... museu do evincar...”
 
Ela ordenou que parassem e voltassem ao museu do evincar.
 
O andar era escuro, porém era iluminado por globos de rochafluente. Volrath trabalhou bastante para catalogar todas as formas de vida Rath. Espécimes de cada espécie estavam aqui, cuidadosamente preservadas e montadas em pedras de mármores. Havia animais, pássaros, répteis, peixes. Algumas delas eram velhas e sofreram por negligência e decomposição.
 

 

Volrath não tinha somente animais aqui. Cada raça senciente de Rath estava representada por quatro espécimes preservadas: adulto masculino, adulto feminino, criança masculina, criança feminina — todos com roupas apropriadas e acessórios típicos. Havia representantes das três tribos – Kor, Dal e Vec.

Dentro de blocos verdes de rochafluente estava um lustroso tritão artisticamente posicionado dentro de sua moldura. A rochafluente simulava seu habitat, o mar. A última raça posicionada eram os elfos de Skyshroud. Havia somente um único exemplar da raça élfica, um homem adulto. Belbe parou, atraída pelo que viu. O rosto, embora másculo, era semelhante ao dela. Ela subiu o pedestal onde estava o elfo embalsamado e encarou cheia de curiosidade aquele rosto morto.
 

 
 
Quem foi você?

Algum caçador, algum pescador pego pelos soldados do evincar? Onde você viveu? Por que você se parece comigo?
Ela tocou o rosto do elfo. Estava seco, frio e duro. O empalhador deu ao elfo olhos azuis acinzentados. Belbe tocou a pupila empoeirada com a ponta do dedo. Não era de vidro e ela se retraiu ao toque. A mensageira caiu para trás, tremendo. De repente, ela sentiu a sala ficar menor e opressiva. Ela tinha que sair daquele lugar.
 
O elevador a esperava e, de uma vez por todas, ela foi para os aposentos do evincar.
 
Ela parou na parte inferior dos aposentos do evincar. Apena uma pequena sala oval, possuindo uma antecâmara fria e sombria. Ordenando um pouco de luz, a sala iluminou-se gradualmente com uma intensa luz azul pulsante. Belbe andou até o centro da sala enquanto as paredes passavam de opacas para translúcidas. O azul pulsante era a luz de energia do lado de fora. Ela podia sentir a energia sangrando pela sua pele. O piso inferior da suíte era uma sala grande, com paredes curvadas para dentro e, enquanto ela estava fascinada pela energia que passava entre a Fábrica de Rochafluente e o Hub, o chão começou a piscar. Ondas de cores desbotadas circulavam o chão em faixas alternadas de vermelho, laranja, amarelo, verde e azul.
 
Centrada nesse vórtice silencioso de cor, Belbe permaneceu em silêncio. As ondas cromáticas circulavam a sala ao redor dos pés. Ela sabia que isso era causado pelo feedback da rochafluente quando era absorvida pela energia através das paredes, mas mesmo assim era algo prazeroso, seja o que fosse. Enquanto ela se dirigia para o andar de cima, a roda de cores se mexia junto. Fascinada, ela deu um passo para trás e as cores a seguiram.
Ela caminhou pela sala, apesar de suas pernas mecânicas serem capazes de alta velocidade, ela não precisava testar seus limites. Ela corria pela sala e, mesmo assim, mãos espectrais a perseguiam pelo piso. Cargas estáticas se formavam no ar. Todo esse espetáculo a fazia rir.
 
Distraída enquanto corria ao redor da sala, ela não percebeu que Crovax estava no elevador. Assim que parou, o chão passou por um paroxismo silencioso de cores conflitantes que finalmente se firmou em um padrão.
 
Crovax foi até ela para saber se a emissária Phyrexiana necessitava de alguma coisa. Embora ele tivesse as palavras de um subordinado, ele não falava como um. As cores na torre o atraíram, pois aquele tipo de efeito não era algo comum. A rochafluente era uma substância interessante. Podia ser controlada se a pessoa tivesse vontade suficiente para isso. Ela podia ser metade controlada e metade influenciada, totalmente imprevisível.
 
Ele partiu pelo elevador, deixando a emissária nos antigos aposentos de Volrath. Rapidamente, Belbe descobriu que os aposentos de Volrath eram cheios de imagens, tapeçarias e estátuas retratando o evincar como um ser supremo. Em alguns, Volrath destruía um exército inteiro apenas com sua espada. Após perambular pelos aposentos, finalmente ela encontrou o que tanto procurava: uma cama para poder descansar.
 
Enquanto isso, no interrogatório de Ertai...
 
“Vamos pôr um ponto final nisso!”
 
Greven acenou para os dois moggs carcereiros que rasgaram a camisa nas costas de Ertai. Ele não se importou muito com aquilo, afinal, já estava aos trapos a peça de roupa. Porém, ele se importou com um braseiro de ferro que estava perto deles.
 

 
“Não vai conseguir nada com isso. Tenho nada a dizer.”

Greven pegou um instrumento da bolsa do cinto — uma haste esbelta e vermelha, enrolada em uma bobina apertada e achatada. Ele beliscou o final da bobina entre os dedos e lentamente desenrolou numa haste rígida.
 
O brutamontes pairou sobre Ertai. Ele deu uma reviravolta na ponta do bastão e apareceram pequenos espigões no extremo oposto. Ertai concluíra que preferia o ferro quente do que aquele dispositivo. Ele recuou, mas a parede o deteve.
 
Outra vez, Greven gesticulou para os moggs que o seguraram pelas ancas. Eles ergueram o pé direito do mago e Greven se inclinou sobre ele, com o bastão em mãos... Ertai fechou os olhos.

Click.
 
Os pesados grilhões de suas pernas caíram. Ertai abriu os olhos em tempo de ver Greven retirar o bastão do buraco da fechadura. Ele fez o mesmo no outro grilhão.

“Pelas cores, eu pensei-”
 
Greven guardou o bastão, enquanto os moggs pressionavam Ertai contra a parede. Ele ergueu o ferro quente que estava em tons alaranjados, “agora, conte-me sobre o Bons Ventos.”
 
Ertai, com as mãos imobilizadas, fechou os olhos e conjurou uma explosão psicocinética. Tais conjurações não eram tão controláveis como aquelas canalizadas com as mãos, mas considerando sua atual situação, ele tinha pouca escolha. Mentalmente, ele a arremessou em Greven. O som do ferro batendo no chão compensou.

“Posso aguentar isso mais do que você”. Greven pegou de volta o ferro caído, esfriado pelo chão, e o pôs de volta ao fogo. Aquilo poderia levar o dia todo, mas tudo dependeria da decisão de Ertai.
 
“Um mínimo de resistência é obrigatório, afinal sou o mago mais talentoso nessa idade.”
 
“Aqui embaixo, garoto, você é apenas carne.”
 
Nos aposentos do evincar...
 
Após uma hora de descanso, Belbe acordou sentindo-se um pouco dura e desorientada. Bastaram poucos minutos para que ela se concentrasse e se recuperasse da vertigem. Apesar da comida deixada no aposento, ela não comeu. Ela sabia o que era comida e bebida, porém os Phyrexianos eliminaram essas fraquezas e, por causa disso, não havia mais a necessidade de comer ou beber. Mesmo assim ela cheirou o bolo e mordiscou um pedaço. Não tinha gosto. Ela tomou um gole do vinho e o cuspiu no chão. Para seu paladar inexperiente, a bebida era vil.

Sua bagagem foi deixada no quarto. Para abri-las, bastava tocar o selo de rochafluente com sua digital. As três primeiras caixas não traziam nada de mais, apenas roupas, powerstone e algumas armas, mas a quarta caixa, ao se abrir, revelou mais três caixas menores dentro. A maior delas estava marcada com a inscrição “Acelerador de Conversão de Nanomáquinas.” A menor dizia “Unidade de Energia”. Estes eram dispositivos que deviam ser instalados na fábrica de rochafluente, nas profundezas da Cidadela. Na caixa média estava escrito “Portal Remoto de Transplanação.”
 
Ela retirou as peças da armadura para sentir um pouco de liberdade. Estava anoitecendo, perto do horário que ela se dirigiu para a reunião do conselho. Para celebrar sua recém-descoberta liberdade, ela escolheu um par solto de calças vermelhas ondulantes, cobertas por uma túnica de prata na altura da cintura. Ela foi até o elevador, parou e voltou para a armadura abandonada. O kit de cinto ainda estava em torno de sua couraça. Abcal-dro a advertiu para nunca se separar do seu kit, porque ele continha sua peça mais valiosa dos equipamentos.
 
A reunião fora uma coisa chata e penosa para Belbe. Dorian e Greven estavam sentados na mesa esperando por ela. Ele devia dar detalhes da quantidade de pessoas, trabalhadores, comida, exército e coisas do tipo para que ela soubesse a situação da Cidadela. Crovax ainda não havia chegado.
 
Dorian começou lendo um pergaminho e quando terminou o primeiro, ainda havia mais cinco para serem lidos com relatórios do cotidiano da Cidadela, mas a maçante reunião fora interrompida pela súbita presença de Crovax com um grupo de soldados.

Seu atraso foi justificado pela missão que a emissária havia dado anteriormente. Ele partiu para inspecionar as tropas e não queria retornar com a tarefa incompleta. Aquela atitude não foi muito bem aceita por Greven, primeiro porque as tropas atrás de Crovax estavam sendo lideradas pelo sargento Nasser e outros sargentos sêniores e, segundo, porque somente o evincar tinha permissão de andar com homens armados na Cidadela.
 
As portas se fecharam atrás dos soldados e Crovax tomou seu assento no pequeno conselho.
 
Os relatórios foram dados por Greven, que relatou o interrogatório e as informações dadas pelo mago Ertai. Aparentemente, ele não descobriu muito mais do que Crovax já sabia e todo aquele falatório apenas deixou o antigo membro da tripulação entediado. Greven narrou os acontecimentos e como Ertai ajudou o Bons Ventos a escapar e, por fim, como o capturou a bordo do Predador. Ele colocou um pergaminho sobre a mesa, contendo todos os detalhes — construção, especificações, armamento do Bons Ventos e o fechou em suas mãos enormes. “Logo eu conhecerei aquele navio melhor do que o Predador. Na próxima vez, esmagarei o Bons Ventos.”
 
“Sim, na próxima vez. O refrão do derrotado.”
 
Aquelas palavras foram o suficiente para Greven. Sem ranger de dentes ou palavras de aviso, o brutamontes foi até Crovax e o pegou pela garganta. Crovax, com ambas as mãos, segurou o antebraço de Greven e começou a se soltar do poderoso aperto dele. Surpreendido, Greven deu um forte soco no nariz do homem. Crovax deslizou para trás, devido à potência do soco.

“Sua Excelência, faça alguma coisa,” chorou Dorian.
 
Belbe recostou-se na cadeira do evincar e disse: “estou fazendo alguma coisa.”
 
Greven avançou, chutando a cadeira para fora do caminho. O quase-evincar se pôs de pé, ignorando o jorro de sangue no nariz, e puxou de debaixo da axila uma pequena adaga.
 
“Sem lâminas, Crovax.” Ordenou Belbe.

Ele jogou fora a adaga. Greven chegou a ele e deu dois golpes, primeiro esquerdo e depois um direito. Os golpes acertaram o ar, pois Crovax esquivou de ambos e chutou Greven no estômago. Foi como chutar um tronco. Mostrando preocupação pela primeira vez, Crovax saltou para longe, evitando os punhos de seu inimigo.
 

“Um pouco injusto, não acha?”

“Por que você acha que um combate tem que ser justo?”
 
Rosnando, Greven agarrou uma cadeira vazia e a arremessou em seu inimigo. Saltando impressionantemente, Crovax evitou o ataque. Ele deu um chute rodopiante que acertou a mandíbula de Greven, forçando o guerreiro a ir para trás. Greven subiu na mesa, forçando Crovax a dar espaço. Belbe observava os gladiadores fascinada. Quando eles se chocavam, o impacto enviava uma pontada quente e fugaz através dela. Não era igual àquela que sentiu quando Abcal-dro inseriu as Lentes em seu peito. A sensação trazia uma sensação calorosa na barriga e no rosto. Ela se pegou desejando que Greven acertasse Crovax outra vez. Isso a surpreendeu.

Que diferença fazia quem ganhasse?
 
Um golpe de Crovax abriu um rasgo na cabeça de Greven. Aquilo apenas o deixou mais furioso. Se movendo numa velocidade anormal para seu tamanho, Greven partiu como um martelo na direção de Crovax pressionando contra a porta de entrada. Ele se colocou no meio do caminho, esmurrando o rosto e a garganta de Greven.
 
Ele pagou por sua temeridade. O bofetão de Greven arremessou Crovax contra as portas fechadas.

“Por que não ordena a rochafluente para salvá-lo?”
 

 

Belbe estava se perguntando o mesmo. Crovax havia demonstrado habilidades psiônicas suficientes para comandar as nanomáquinas. Ele podia ter feito Greven tropeçar no chão, ou erguer um escudo como ele fizera nos Salões Oníricos.

Por que ele não fez isso outra vez?
 
Greven pegou o homem atordoado pelo pulso. Ele pretendia arrancar o braço de Crovax fora, mas enquanto ele se preparava para o esforço uma baixa, anormal, risada encheu a câmara do conselho. Crovax ergueu a cabeça, os olhos incandescentes de júbilo. “Faça o pior, selvagem. Essa será a última vez que você porá as mãos em mim.”
 
Quando Greven respirou novamente, ele entendeu o que Crovax quis dizer. O dispositivo de controle em sua espinha despertou e começou a tremer, despejando torrentes de dor em cada centímetro do seu corpo. Caindo em agonia, ele soltou Crovax.
 
Belbe pôde ver o implante vivo entre os ombros cheios de lâminas de Greven. Através dos seus olhos aprimorados, o dispositivo brilhava com excesso de energia que o mecanismo Phyrexiano convertia numa dor insuportável. Ela estremeceu. A boca ficou seca.

Crovax limpou o sangue dos lábios. “Me acerte Greven. Estou bem aqui.”
 
Os joelhos de Greven se afrouxaram. Ele tentou alcançar o dispositivo nas costas, mas isso era impossível devido aos seus ombros extremamente largos. Crovax ergueu seu pé e o botou sobre o peito de Greven.
 
“Isto é apenas uma demonstração. Quando eu for evincar, você lamberá minhas botas toda manhã ou conhecerá meu descontentamento.”
 
Belbe surgiu atrás dele. O controle de Crovax sobre o dispositivo espinal não veio sem esforço. O suar escorria pelo rosto e pescoço. Ele tremia violentamente — de esforço ou excitação? Ela não sabia dizer. Belbe colocou a mão sobre o ombro de Crovax. A pele dele queimava fervorosamente. Apesar de tudo, Greven era um membro valioso das forças de Rath e ela não desejava que fosse danificado.

Crovax retornou ao seu lugar na mesa do conselho. Seu relaxamento era visível. Assim que ele sentou, Greven soltou um longo respiro de alívio.
“Proclame-me evincar. Eu comando a rochafluente. Acabei de demonstrar minha habilidade para controlar o dispositivo. De que mais provas você precisa? Largue sua missão e nomeie-me governador.”
 
Em silêncio, Belbe retornou ao seu assento. Crovax era o principal candidato, mas havia outros que não tiveram a oportunidade de mostrar seus talentos. Incrédulo, Crovax apontou para o miserável Greven em seu estado lastimável. Ninguém se aproximava dele em força. Belbe sabia disso, mas ela também sabia que o poder dele era limitado. Ele podia influenciar a rochafluente, mas somente através de grande concentração. As formas que ele fazia não eram permanentes. Durante o combate, ele esteve muito ocupado desviando dos ataques de Greven para se concentrar e usar a rochafluente. E a distância do seu poder sobre o dispositivo era muito curta. Talvez um metro ou dez.

Para tamanha força, mais poder psiônico era requerido. Ela não sabia se ele podia comandar o exército, executar ordens dos soberanos de Phyrexia sem questionar. Sua decisão seria deferida quando ela tivesse evidências suficientes para escolher o mais qualificado para ser evincar.
 
Eles continuaram com o conselho. Crovax entregou a ela um pergaminho com o relatório sobre as tropas. A situação não era muito boa.
 
A guarnição da Fortaleza estava um desastre. Os soldados estavam temerosos que os rebeldes estivessem equipados com embarcações voadoras, e eles sabiam que Volrath os deixara na mão. Os rebeldes acreditavam que haviam conseguido vitória porque conseguiram penetrar na Cidadela e voltaram com vida. Agora, eles tinham mais confiança num ataque futuro.
 
Mas para o candidato a evincar a solução era simples. Ataque imediato!
 
Era a última coisa que os rebeldes esperavam. Crovax lideraria uma força poderosa, os melhores soldados. Dez mil tropas e mais um tanto de moggs como carregadores. Sem animais de carga ou maquinário pesado. Sargento Nasser informara que havia agentes infiltrados na Floresta de Skyshroud que providenciaram mapas. Ele localizaria e destruiria o vilarejo de Eladamri, líder dos rebeldes, e traria sua cabeça numa bandeja.
 
Belbe piscou algumas vezes. “Por que desejaria a cabeça dele numa bandeja?”
 
A emissário deu permissão para que os preparativos fossem realizados e Crovax liderasse o ataque. Ele saiu da sala, mancando, porém sorrindo. No caminho, ele pisou em Greven que ainda agonizava de dor. Depois que as portas se fecharam, Belbe perguntou o que Greven achava do plano de Crovax. Branco como a morte, ele rastejou até a cadeira.
 
“Eladamri fará o que eu não pude. Ele matará Crovax. Infelizmente, ele também matará os melhores do meu exército.”
 
TAGS: 

Leandro "Arconte" Dantes (VIP STAFF Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
Redes Sociais: Facebook
LigaMagic App

ARTIGOS RELACIONADOS

Nêmesis - Escolhas

CAPÍTULO 4.


O Contador de Estrelas

Um conto em Theros


As Máscaras de Mercádia – Maquinações

Parte XIII


As Máscaras de Mercádia - Parte XII

O Lamentar de Ramos.


Máscaras de Mercádia  - Parte X

Ouramos!





Comentários

Ops! Você precisa estar logado para postar comentários.

Tyr (21/05/2018 10:44:52)

Não, infelizmente... mas eu quero ler sim... kkk...

VIP STAFF Arconte (16/05/2018 15:01:31)

Isso é um trabalho beeeemm longo jovem padawan. Mas com perseverança você chega lá. Já leu os livros que contam a Saga de Urza e os dois de Invasão?

Tyr (15/05/2018 13:47:03)

Pior que estou ansioso pra ver o fim dessa saga, pra entender Dominária atual... kkk... entender nova phyrexia e tudo mais....

VIP STAFF Arconte (14/05/2018 18:18:17)

Até Lorde Yawgmoth tinha seus preferidos

Tyr (13/05/2018 19:08:58)

Ah, essa imparcialidade doPai das Máquinas... kkk...

VIP STAFF Arconte (13/05/2018 18:36:15)

Idem. Crovax já chegou com grande vantagem sobre os demais candidatos

evincar (13/05/2018 13:50:58)

Sempre mto bom!

Tyr (13/05/2018 13:28:32)

Oloko... eu já tava ansioso por esse episódio... kkk...
A continuação promete... pior que eu não consigo torcer pelo Crovax, preferia o Greven ou o Volrath... kkk...