Pedra, Papel, Tesoura, Lagarto e Spock
22/06/2018 14:00 / 4,621 visualizações / 10 comentários
 
Olá! Com a proximidade do Grand Prix São Paulo, a Grande Final do CLM 11 e a temporada de PPTQs Modern, aquele que já é o mais popular formato do Magic fica ainda mais em evidência, e é o assunto do meu artigo hoje na LigaMagic.
 
Esse tema já estava na minha lista de pautas a serem trabalhadas faz tempo, e o momento propicia a oportunidade perfeita — a forma com que os principais decks do Modern se revezam no Tier 1 e como todos os participantes dessa dança reagem a essas mudanças.
 
Em formatos como o Standard, os jogadores acabam compelidos em fazer uma boa leitura do senso comum para prever o metagame de determinado evento, e com base nisso, escolher um deck que esteja melhor posicionado. Se UW Control é o melhor para ganhar de Mono Red, que ganha de BR Aggro, que ganha de UW Control, num "pedra-papel-tesoura" simplificado, bastaria acertar em qual nível a maioria dos jogadores estaria e então vir equipado com o deck do nível seguinte, como o Brad Nelson sempre foi especialista em fazer. Nada melhor para um "clean sweep" num longo dia de torneio que estar equipado com tesouras num mundo de papéis.
 
Mas essa não é a realidade do Modern. O que temos é um metagame com cerca de 7-8 decks Tier 1, mas com 50 outros decks Tier 2 que têm totais condições de chegar lá e ganhar o torneio num dia bom. E, embora existam alguns casos de "presas e predadores", a coisa é muito mais complexa que pedra-papel-tesoura. Digamos, talvez, que seja um Pedra, Papel, Tesoura, Lagarto e Spock.
 
Pedra, Papel, Tesoura, Lagarto e Spock: os principais macroarquétipos
 
Apesar de não ser uma classificação tão precisa, em que pode haver algumas discordâncias filosóficas de onde encaixar qual arquétipo, separar os decks do formato por categorias ajuda a desenhar a "figura maior". Assim sendo, os principais macroarquétipos são os seguintes:
 
Aggro sinérgico/"aggro-combo": Affinity, Burn, Boggles, Infect, Elves
Aggro "pesado": Hollow One, Dredge, Eldrazi Decks
Aggro Disruptivo/Toolbox/Taxes: Humans, BW Eldrazi and Taxes, Counters Company
Midrange: Mardu Pyromancer, Jund, Grixis Death Shadow, GW Value Town, RG Ponza
Control: Jeskai Control, UW Control, Grixis Control
Control "Prison": Lantern Control, RW Prision, Skred Red
Big Mana: Gx Tron, RG Valakut, Amulet Titan
Combo "puro": UR Storm, Ad Nauseam, KCI, Griselbrand
Control-combo: UR Moon Breach, Bring to Light Scapeshift, Living End
 
Aggro sinérgico ou "aggro-combo" são decks altamente focados em realizar seus próprios planos, com todos os cards do deck contribuindo em prol desse plano, que geralmente conta com alguns cards centrais (os ditos "payoff"). Por exemplo, Chapeamento Craniano e um monte de artefatos evasivos de baixo custo junto de acelerações de mana é o que compõe o Affinity. Ao depender de várias engrenagens para fazer rodar o "robô", o Affinity acaba sendo suscetível aos decks altamente interativos — Midrange e Control são seus piores inimigos. Cards como Fatal Push, Lightning Bolt e Path to Exile garantem que o Affinity não consiga emplacar algo absurdo nos turnos 1 e 2; e Snapcaster Mage, Lingering Souls e Kolaghan's Command garantem os 2x1s nos turnos médios do jogo, que viram a chavinha e asseguram a vitória do Control.
 
Por outro lado, decks como Jeskai Control, Mardu Pyromancer e Jund acabam sofrendo na mão dos Big Mana. Valakut, Tron e Amulet Titan estão tentando fazer algo que é muito acima das "jogadas fortes" dos decks justos em turnos muito antes do que deveriam, além de ignorarem a maioria da interação rápida e jogarem bem no "modo topdeck" depois que são exauridos dos recursos iniciais do jogo.
 
Mas, por outro lado, como esses decks também precisam dedicar uma enorme quantidade de espaço de deckbuild para cards como Sakura-Tribe Elder, Sakura-Tribe Scout e Sylvan Scrying, eles são deficientes em interagir com combos "puros", e geralmente mais lentos para tentar racear. Deixar o cara desvirar no turno 3 com Baral, Chief of Compliance é garantia de morte contra um UR Storm, da mesma forma que remover o último marcador de Suspend da Lotus Bloom ou um Krark-Clan Ironworks resolvendo impunemente costumam decretar a derrota.
 
Aí que começa a entrar a parte "lagarto e spock". Por exemplo, dentro dos Aggros Sinérgicos, temos o Boggles, que pela sua forma peculiar de jogar, vê em decks interativos matchups fáceis. Assim como o Burn adora enfrentar qualquer controle não-Jeskai (sem Lightning Helix e Snapcaster Mage), já que pune sem igual oponentes com clock muito lento. Mas nenhum desses decks quer enfrentar um Ad Nauseam, um combo que compra muitos turnos graças ao poder do Phyrexian Unlife e Angel's Grace. Coisa que não acontece na partida do Burn contra o Storm, que além do "hate maindeck" em Eidolon da Grande Festança, tem várias remoções pro Baral.
 
Por isso, podemos tomar os macroarquétipos apenas como base para começar a formular ideias de "o que ganha do que", já que a extensa cardpool e interações estranhas do Modern acabam criando partidas boas e ruins em cenários menos óbvios. Como demonstrado nos exemplos acima, às vezes um dos decks de uma certa categoria que deveria ser "predada" por outra consegue ter uma matchup excelente contra algum de seus teóricos predadores, ou mesmo são partidas muito mais próximas do que deveriam ser, sendo decididas pela preparação e experiência de ambos os jogadores.
 
O Metagame de hoje
 
Desde o final do ano passado, com a entrada de Ixalan, um dos decks que mais cresceu foi o Humans. Inicialmente um meta call forte para um mundo de UR Storm e Grixis Death Shadow. Com o tempo, o deck se firmou no topo por suas próprias qualidades, as quais são um goldfish rápido graças a Thalia's Lieutenant e Mantis Rider aliados ao poder disruptivo de Meddling Mage, Kitesail Freebooter e Thalia. Os Phantasmal Image adicionam redundância a qualquer um desses planos, enquanto que AEther Vial e Noble Hierarch permitem a explosão inicial, "dobrando" nos turnos iniciais críticos do jogo.

5c Humans, por Martin Juza - Modern
2018-06-19

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Em resposta, um dos decks que rapidamente subiu de Tier e chegou a ficar entre os três mais jogados foi o Affinity — enquanto o principal deck do Modern era um aggro de bichinhos disruptivos que eram potencializados por efeitos tribais, Steel Overseer, Arcbound Ravager e Chapeamento apenas fazem a coisa mais injusta mais rápido, sendo uma matchup bem ruim pro Humans e suas poucas formas de interação (principalmente instantânea).
 
O aumento de Humans e Affinity fez com que Jeskai e Mardu Pyromancer, decks com diversas remoções eficientes e de nomes diferentes, também aumentassem. Teferi, Hero of Dominaria em particular levou o Jeskai a um novo nível atualmente. Só que a presença desses decks cheios de remoção rápida sempre instiga os Big Mana e Combos. Mono Green Tron é o caminho quando todos estão jogando com mais Raios e Paths e menos counters e Spreading Seas, além de finalmente ter chegado numa fórmula aceitável contra os seus bad matchups (aggros sinérgicos) com a ajuda de mais cópias de Walking Ballista, Ugin, the Spirit Dragon, Wurmcoil Engine e as quatro Oblivion Stone em detrimento de mais cópias de World Breaker e outros bichões, como Emrakul, the Promised End. Por esse motivo, está tão alto nos Tiers, local onde nunca antes esteve apesar de sempre ter sido no mínimo Tier 1.
 
Mono Green Tron, por Yuri Ramsey - Modern
2018-06-19

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Esse meta de Humanos, Affinity e Tron acabou afastando para os Tiers mais baixos uma categoria de decks bastante popular aqui no Brasil: Eldrazi Decks. Eldrazi Tron, RG Eldrazi, Bant Eldrazi e afins estão pouco populares devido às dificuldades em responder aggros disruptivos e sinérgicos. Esse espaço de "deck super explosivo com abertura idiota, mas capacidade de jogar um jogo mais grind se meu oponente interagir" acabou sendo tomado pelo Hollow One, que tem a capacidade tanto de vomitar bichos 4/4s e 5/5s nos dois primeiros turnos, como de ficar tomando remoções atrás de remoções e voltando pro jogo cavando novamente com os feitiços vermelhos e retornando Phoenix e Bloodghast do cemitério.
 
Depois de Humans, Hollow One, Affinity, Mono Green Tron, Jeskai Control e Mardu Pyromancer, os atuais seis primeiros decks do MTGGOldfish e os verdadeiros "filés" do Modern, temos outros decks que estão correndo por fora e surgindo, tentando explorar suas próprias lacunas no metagame.
O KCI é um ótimo exemplo: o deck é um combo poderoso de turno 3 ou 4 se não for enfrentado com hate suficiente. Além disso, estamos num momento em que os decks precisam responder criaturas muito grandes nos primeiros três turnos e ficar pensando em formas de diversificar suas remoções para contornar Meddling Mage, de modo que é criada uma lacuna para um combo que exige especificamente Stony Silence, Rest in Peace ou Leyline of the Void para ser parado, cartas que, embora ainda sejam usadas nos sideboards, não estão nas mesmas quantidades de antigamente, já que pouco fazem contra Humans e Hollow One (mesmo que trave a recursão, ainda exige o restante do deck funcional para conseguir levar o game/match).
 
KCI, por Matt Nass - Modern
2018-06-19

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Outro deck que vem surgindo silenciosamente por baixo é o Infect. O deck possui good matchups contra a maioria dos aggros sinérgicos, Big Manas e Combos (todos decks em média 0,5 a 1 turno mais lentos que o Infect, porque portam pouca interação devido às suas exigências de deckbuilding para serem funcionais), e já mostrou resultados colocando dois representantes no Top 8 do último PTQ do Magic Online e ganhando o SCG Invitational com a tecnologia dos Geist of Saint Traft no sideboard.
 
UG Infect, por Aaron Barich - Modern
2018-06-21

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A dança continua
 
Dizem que o Modern sempre se corrige, e isso é algo que de fato acaba acontecendo, a menos que algo muito broken exija banimento. Nessa última semana, Humans não tem sido um deck que tenho enfrentado tanto no Magic Online, tampouco vendo muitos streamers ou colunistas jogando e falando dele. Isso significa que seu reinado pode estar se aproximando do fim?

Talvez, embora eu ainda veja o deck como tendo bastante lenha para queimar justamente por poder aproveitar-se de qualquer Humano já printado no Modern e ser sempre um deck cotado à receber incrementos através das novas edições lançadas enquanto não fizerem o Magic em um plano alienígena. E o deck não ficou "ruim" de repente nem nada do tipo, só significa que com preparação adequada, o deck é longe de ser uma máquina invencível como parece ser dado os números de fatia de metagame.
 
O que é certo, porém, é que enquanto o Humans permanecer no topo, ele vai acabar forçando os decks ao redor a irem reagindo a ele, dessa forma abrindo lacunas para que outros decks que atacam por ângulos completamente diferentes apareçam e se movam ao Tier seguinte. Assim, a dança continua.
 
-
E quanto a vocês, leitores, como enxergam esse "pedra-papel-tesoura" do Modern? Concordam com a ideia de que o formato não é tão "preto no branco"? Ou acham que pareamento acaba sendo o fator que mais define o resultado de um evento? Compartilhem suas opiniões nos comentários!
 
Abraços e até a próxima!
 
 

Matheus Akio Yanagiura (VIP STAFF sandoiche_13)
"Matheus Akio Yanagiura, mais conhecido como "Sandoiche", começou a jogar em 2003, em Flagelo. Representando a House of Cards, está sempre na vida do grind dos torneios em SP, tendo sido campeão da Grande Final do CLM 10 Modern, a maior até então. Como entusiasta do Magic, principalmente do competitivo, Sandoiche está sempre acompanhando todo o tipo de conteúdo publicado, buscando aprender e evoluir o quanto puder. Começou a publicar artigos sobre Magic periodicamente em 2012, colaborando para o Blog da Ligamagic desde 2015."
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Comentários

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RicoMartins (09/07/2018 12:07:54)

Loguei só pra elogiar! Que artigo! Fiquei um tempo fora e estou voltando pro Modern e me atualizando. Obrigado por compartilhar essas info e insights!

NewbasTeam (29/06/2018 21:58:11)

Belo artigo!!!

XirudaBossoroca (28/06/2018 17:30:19)

Ótimo artigo!

HAB_0013 (28/06/2018 00:29:17)

Sempre com informações úteis e técnicas. !!! Top como sempre.

HHHH (24/06/2018 19:52:53)

Excelente artigo, mais uma vez.

tattoowalker (22/06/2018 22:14:17)

Modern tá uma selva msm..todos em busca de quebrar o meta que está longe de estabelecido..

LOUD (22/06/2018 21:32:22)

Aula de artigo!!!

morgoth_lotr (22/06/2018 18:55:08)

Excelente artigo.

Eu acho que uma leitura do meta é bem relevante e saber qual o arquétipo está melhor posicionado te coloca a frente da competição.
Mas o Modern é uma casa da mãe Joana, além dos pareamentos temos ainda a questão de sideboards: as vezes a vitória vai pra quem compra a sua resposta.

darknessmp (22/06/2018 17:02:13)

Muito bom artigo. Parabens!

MMAMetal (22/06/2018 14:29:33)

Rindo desse título até o décimo dedinho do Lula crescer de volta rssssssssssssssssss

Lembrei do Sheldon explicando as regras em Big Bang Theory, falando rápido, e quando ele termina o Howard ou o Leonard (não lembro qual dos dois) vira e fala "Repete, por favor?"