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Nostalgia
Aliada ou Inimiga?
12/06/2020 10:05 - 4.838 visualizações - 46 comentários
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Saudações, viajantes de terras distantes. Hoje não falarei sobre Lore, mas sobre aquilo que permeia vossa alma quando vocês leem sobre o Lore de outrora: a nostalgia.


Eu sou uma das pessoas mais nostálgicas que conheço. Para terem uma noção, em uma playlist minha, sempre quando vou à casa de um colega meu jogar Magic, toco duas ou três músicas que faziam nossas alegrias durante as tardes de jogatina, isso em 1998. Mas não vim falar sobre mim, e sim sobre como percebo a nostalgia, de forma acentuada, dentro da comunidade de Magic.

 

O que é Nostalgia?

 

 

Parafraseando o degolador sirenídeo, a nostalgia é o eco da sua alma.

 

“Magic era bom em 1999 quando...”
“Quando comecei a jogar em 2002...”
“Bom mesmo era aquele deck de 2012 porque ele...”


Talvez você tenha se visto em alguma dessas frases. Quem aqui nunca pensou dessa forma? Se você não pensa assim pelo menos possui um ou outro colega, que talvez nem jogue mais, porém sempre vem com essas frases, dizendo que o “declínio” do Magic o fez abandonar o jogo. Elas são expressões de nostalgia, termo que para os gregos significava a dor (algós) que atingia quem fazia uma viagem (nostós) para longe do seu país. De acordo com o dicionário, é um sentimento ligeiro de tristeza pela lembrança de experiências vividas no passado, além de saudade ou tristeza por algo ou alguém que já não existe mais ou que não temos mais.


A nostalgia não deve ser confundida com saudade, pois não são sentimentos iguais. Sentir saudade é algo inerente ao ser humano. É um sentimento bom porque mostra nosso apreço por alguém ou algo, ao contrário da nostalgia que engana sua mente lhe dizendo que o que se tinha ou vivia no passado era melhor do que o que tem e se vive hoje.


Alguns acreditam que a nostalgia é apenas sentida por pessoas que tem um presente pobre de alegrias. Se analisássemos dessa forma, somente as pessoas que estão com algum distúrbio sentiriam esse apego ao passado. Em parte, acredito nessa questão de um presente pobre de alegrias, não como algo patológico, mas como um escape, um gatilho da mente. Algo como uma forma de voltarmos ao nosso mundo de fantasia onde nos refugiávamos das intempéries da vida.


Se lembrar do passado, com alegria, é bom. Lembrar-se do passado é uma forma de estímulo para crescer e se desenvolver na vida. A memória sempre se relaciona com o passado porque o passado está perdido. É um tempo, uma pessoa, objeto ou sensação que nunca mais voltará. Isso tudo está relacionado à memória cinestésica que é o alinhamento da memória visual, auditiva com as sensações.


Um exemplo prático: lembre-se quando você tinha seus 9-10 anos e passava à tarde jogando Super Mário. Você se lembra com carinho daquele tempo, do ventilador rodando no calor da sala, das fases e como quase chorava ao morrer nos castelos. Os anos passaram-se e você resolve baixar um emulador para jogar conectado à sua Smart TV de 52’, com seu ar-condicionado no máximo e o que acontece? Nada. Você joga, passa algumas fases e logo se entedia. Isso acontece porque sua memória está atrelada a uma gama de outras sensações cinestésicas que, na hora da lembrança, não surgem, mas quando você volta a jogar percebe que algo está faltando.

 

Nostalgia, aliada ou não?

 

 

Os jogadores de Magic são as criaturas mais nostálgicas que já conheci na vida. E falo isso com certa tristeza porque uma grande maioria está assim, acorrentado à memória de um passado e não consegue enxergar o presente diante de si. A nostalgia começa a ser um problema quando ela te inibe e te prende a um passado, que nem sempre foi tão glorioso assim.


Há aqueles que largaram o jogo porque a nostalgia tornou-se tão intensa que o impediu de continuar. Ele parou de jogar o jogo que antes amava porque ele não é mais como era quando o conhecera. Nesse tipo de situação a nostalgia torna-se um problema, pois a pessoa não consegue encerrar o luto pelo o que foi perdido.


Eu, como escritor acerca de Lore, estou mergulhado em nostalgia. Ela é o ópio do leitor e minha função é atiçar isso. Uma imagem. Uma carta ou um texto são ferramentas de gatilho que procuro utilizar para que você, meu caro leitor, sinta-se feliz e mate a saudade de seus personagens favoritos.


Essa é uma forma de boa nostalgia que é o contrário das reclamações, quando não possui base, da comunidade.


A evolução só existe porque algo se tornou obsoleto (amantes de Old Frame que o digam). A vida – o jogo – precisa seguir em frente. Adaptar-se ao novo mundo. Criar desafios novos. Temáticas novas e etc. Eu tenho ABSOLUTA certeza que ninguém mais estaria jogando Magic se ainda estivéssemos com layout e artes no estilo de 4ª edição.


Você pode até reclamar do novo layout das cartas (quero minhas foils antigas de volta!), de um Ban que ocorreu ou de como “mataram” o Magic com determinada mecânica, mas isso não pode te impedir de enxergar o presente como é. Ficar preso em determina época do Magic alegando que você só era feliz nesse tempo traz sofrimento. Em alguns casos – falo de nostalgia de forma geral – esse tipo de sensação pode virar um distúrbio psicológico, com necessidade de tratamento.


O nostálgico não consegue ver alegria no presente. O peso lhe consome de tal forma que a única coisa que ele faz é resmungar. Se você fizer um exercício mental agora, e se lembrar dos anos iniciais de Magic, veras que sua vida hoje, de certa forma, está melhor do que naquela época. É claro que nem todos aqui passaram por dificuldades financeiras na adolescência, traumas e coisas do gênero. Mas para muito, aquela época, quando jogava com cartas emprestadas, o maior sonho era ter dinheiro para o booster.


Hoje você tem acesso a tudo isso e ainda assim não sente prazer.


“Ah, por que quando eu jogava eu não tinha boletos!”


Se você tem boletos é porque, em algum momento, sabia que teria dinheiro para pagá- los. Faz parte da vida adulta. Nem sempre é boa, mas é a evolução da vida, do seu ciclo e devemos aprender a lidar com isso.


Eu sou uma viúva de Urza, mas quantos mais aqui são viúvos de Akroma? Quantas crias de goblins aqui choram ao se recordar do seu deck de Legiões? Não há coisa alguma em sentir saudades desse tempo, das jogatinas com os colegas no pátio da escola, mas se você não enxerga que o Magic de hoje é melhor do que antigamente, então você está caminhando por um caminho sombrio.

 

Necessidade de evolução



 

Está na hora de resolver a pilha!


O passado foi bom e legal, mas se foi. Não o transforme num peso sem necessidade.


Não procure abrigo no passado porque isso gera tendências depressivas. Aceite as perdas. A carta foi banida? Crie uma estratégia nova. Meu colega que jogava comigo desde 2002 parou? Aventure-se. Faça novas amizades, tente se socializar. Sempre há uma resposta para aquilo que tenta nos prender na nostalgia do Magic.


Adaptar-se é um desafio. Para que alcancemos uma evolução arcana, um sacrífico sempre precisa ser pago. Ficar reclamando em cada spoiler que a carta X é ruim perto da Y só mostra o quão Boomer você é. E ninguém gosta de ter boomers por perto.


Vire a página, ou melhor, resolva essa pilha de emoções que começa a se acumular sem resposta. Embora os tempos sejam sombrios (Oko seguido de Companheiros) sempre há motivos para que nosso presente seja melhor do que o passado (nova regra de Commander!).


Guarde o saudosismo numa caixinha. Abra-o de vez em quando, sorria, deixe escorrer uma lágrima, feche-a e olhe para o horizonte que te aguarda.

Leandro Dantes ( Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
Redes Sociais: Facebook
Comentários
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- 17/06/2020 08:21

Urza be praised!

(Quote)
- 16/06/2020 15:29
Uma vez tomei um balão. O cara me convenceu a dar meu avatar de serra em troca de um Monolito sinistro.

Fui muito zoado por isso, mas os Deuses do Magic me fizeram guardar a carta por anos e obter minha justiça.

(Quote)
- 16/06/2020 10:50

O meu era Lanceiro de Souk'ata com força de gigante ou aquele morcego 0/1 com força profana

(Quote)
- 16/06/2020 09:24

ate para o forfun as vezes sentimos. Tava montando um high tide forfun e vi que o preço disparou do nada. Quando fui ver a carta era o brain freeze que o preço decolou graças ao combo com a parada do submundo la

uma carta que ate entao era ok por anos do nada desbalanceou e baniu... infelizmente nao enxergo o preço dela voltando ao normal e nem as pessoas que investiram nela reavendo o dinheiro

(Quote)
- 16/06/2020 07:31
Exatamente, mas convenhamos que todos gostavam e falavam que o melhor "combo" acessível era
1º Turno: Pântano, Ritual Sombrio, Espectro Hipnótico
ou
1º Turno: Pântano, Ritual Sombrio, Cavaleiro Negro e Força profana.
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