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O Risco
Até que ponto um risco pode pagar um preço alto demais
18/06/2021 10:05 - 5.910 visualizações - 21 comentários
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Olá galera, hoje resolvi falar sobre três casos. Hoje me arrependo da  primeira (mas naquele momento não faria outra opção, pois me arrisquei  demais), na segunda fui cuidadoso, mas não tanto, e na terceira deveria ter  ido mais vezes (ou talvez não). Qual a medida certa de você se arriscar por  algo ou por alguém? Até que ponto vamos? Mesmo algo lindo pode ser  pagar um preço caro demais.  


No primeiro caso foi quase um suicídio.  


Não, eu não estava numa loja de Magic em 2001, mas estava com Magic,  na mochila. Era meados do mês de setembro de 2001 (depois do famoso 11  de setembro) e no Rio de Janeiro caiu uma chuva forte. Posso estar errado  quanto ao mês e ao dia, mas do que passei não me esqueço. Coisa típica do  clima com cara de verão. Estava alocado em um cliente em São Cristóvão (era consultor de TI na época), que ficava em uma região entre a Rodoviária e a Praça da Bandeira. Alagamento e árvores caindo, tudo parado. Depois do almoço virou um prefácio de pesadelo, mas as notícias eram inexatas no início da chuva e mal sabia o que acontecia no Rio. Fiquei preso no trabalho. Não fiquei. Naquela época estava descobrindo Magic, e comprava boosters de forma aleatória e alguns livros que saiam.  


Minha filha única nasceu em maio daquele ano de forma prematura. Era  pequena e sofria muito com a virada do tempo. Puxou o pai. Ela estava em  casa com minha esposa (que hoje já não está entre nós). O telefone não  funcionava. Celular não pegava. Nada sabia sobre minha esposa e minha filha. Não pensei duas vezes. Nem internet funcionava legal. Arrumei dois sacos de lixo (isso mesmo!), coloquei um em cada perna, amarrei com fita  crepe e com um guarda-chuva saí do prédio. Estava de camisa de manga  comprida, casaco leve e mochila que continha uma única coisa de Magic: um exemplar do livro ARENA de William R. Forstchen publicado pela Ediouro em 1996 (sim!!! Eu tenho e releio até hoje) que amo e adoro reler ele. Antes de sair coloquei o livro e o deck envoltos em dois sacos e dentro da mochila. Até minha pochete com meus documentos guardei na mochila e  deixei um trocado “mínimo” no bolso. Era cerca das 15:30 horas quando saí.  Parecia um louco na rua. Somente pensava na minha filha e na minha  esposa. Saudade.  


Atravessei a saída do prédio alagada, rezando mentalmente para poder dar  certo, afinal o alagamento parecia ser só ali na frente do prédio. Parecia um  robô andando torto com os dois sacos nas pernas, mochila na frente e guarda-chuva à mão. Chegava a ser engraçado. Consegui chegar à Estação de São Cristóvão e quando vi do alto a Avenida Oeste estava alagada. O desespero e a saudade não deixavam eu raciocinar. Carros e ônibus parados. Pessoas paradas. Tudo parado. Burro!!! Apertei minha mochila bem e pedi  aos Deuses (incluindo os de Magic) que me ajudassem.  


Olhei ao redor e vi pessoas passando pelo cantinho da Avenida Radial Oeste. Decidi ir em frente. Encarei tudo com os sacos de lixos nas pernas.  Passei por um Maracanã alagado com água acima dos joelhos. Fui sair quase quase em frente à entrada da estação da Mangueira. Os sacos de lixo ali  acabaram de se desfazer. O desespero e a saudade me moviam. Não havia  ônibus passando. Burro!!!  


Resolvi caminhar em direção ao Méier e 5 minutos depois passava um  furgão/van fazendo lotação. Milagre. Peguei a van e saltei na Rua Dias da  Cruz. Oba!!! Burro!!! As ruas ao redor estavam alagadas e não daria para subir a minha rua de forma direta. Sem chuva eu chegaria ao meu prédio em 5  minutos. Não parei. Contornei por outra rua menos alagada até chegar a um  cruzamento com minha rua. Cheguei na porta do prédio. Oba!!! Burro de novo. Não havia eletricidade.  


Encarei. Subi 3 andares no escuro e sem lanterna e sem celular. Cheguei a  porta de meu apartamento. Quando me vi estava cheirando mal. Mesmo  assim abri à porta e lá estava minha esposa tremendo de medo, sozinha com  minha filha no colo com medo. Seus olhos brilharam e meus também. Eram cerca de 18h30min. Depois o resto é história. O amor me moveu e me levou  até onde eu mais desejava. Mas por sorte não peguei doença e sofri corte ou acidente. Por incrível que pareça o meu livro ARENA não se molhou. Estava seco. Ele “sobreviveu”. Deus decidiu sobre minha vida e sobre meu livro. Os Deuses do Magic ajudaram. Hoje não arrisco mais, será?  

 

 


O segundo caso foi como um pneu furado no meio do caminho.  


Era a final do torneio da LigaMagic da loja local onde os campeões tinham  vaga para a final do Circuito LigaMagic (cada loja na época tinha seu campeão). Era 2015 (senão me engano) e a loja era a MAGICSTORE (que era a loja que eu frequentava e era sempre bem recebido pelo Max Minato). Classifiquei-me  para a final Standard do top 8. Depois de vários torneios locais, me classifiquei em segundo ou terceiro. Eu era aquele jogador do tipo “regular”. Sofria com o ar-condicionado em qualquer lugar. Naquele dia o clima estava  tipo “vai chover, não vai chover”. Tenho rinopatia alérgica e quando o clima enlouquece eu sofro. Estava com RG midrange com Nissa, Vastwood Seer, Ulamog, Dragonlord Atarka, e o Oblivion Sower. Esses quatro se resolvessem ou se deixassem na mesa era uma festa completa. Coloquei antes de sair de casa algumas coisas na mochila, como biscoito, água, papel  higiênico (opa!!!) e o meu exemplar do Arena. Pensei que fosse sobrar algum  tempo entre as partidas e ia relê-lo novamente.  


Nas quartas de final enfrentei um amigo (que não me lembro do nome agora, mas era conhecido como “Mineiro”) que era sócio do Max Minato na época na loja. Ganhei dele e consegui passar. Joguei simples e com calma. Sempre fui simples e é assim é meu jeito de ser. Três a um. O Oblivion Sower quando entrou “roubou” a única ilha de meu oponente. Cruel, pois ele estava com vários counters. Ele perdeu e ficou irritado. Todos têm seus momentos do tipo “hoje não é meu dia”. Ele foi educado e era super gente boa. Eu só desejava chegar até a final e ser campeão de forma original, com meu deck. O deck estava rodando muito bem. Mas  sempre tem algo: uma dor de cabeça começou e atrapalhava minha concentração. O tempo começou a virar mais forte. Somente pensei “meu Deus, se chover forte fico aqui”. A gente aprende! Até tentei ler o meu exemplar do Arena, mas não consegui.  


Na semifinal enfrentei outro amigo (não me lembro do nome e nem perguntei!), que estava com outro deck que não me lembro (não me forcem a barra!). Ganhei por 3 a 1. No último game a Nissa (já transformada em planinauta resolveu com seu -7). Meu oponente lançou uma mágica que destruía todos os bichos menos lands (ou algo parecido, não me lembro). JUIZ, ele chamou!!! O Juiz veio e as lands ficaram na mesa, afinal eu estava  certo. Ele jogou errado e não viu o detalhe de sua mágica. Ele concedeu. Oba!!! Estava na final. Mas um problema aconteceu: a dor de cabeça piorou muito e comecei a sentir o corpo quente demais. O ar condicionado aliado à alergia e a virada de tempo gerou um problema. Cheguei a ficar muito tonto. Sorte que trouxe água e biscoito e estava bem alimentado. Não trouxe nenhum remédio na mochila. Burro!!! Hoje saio sempre com algo, nem que  seja uma Coristina-D. Desisto? Resolvi ir em frente. O deck estava rodando muito bem. Arrisquei, afinal não estava no meio de temporal, mas na prática estava.

  
Estava na final. Meu oponente era o Celso Bastos (se não me engano era o nome completo dele ou parte) que estava de Abzan (essas duas  informações me lembro!). Ele ganhou a primeira. Empatei. Ele fez 2 a 1. Foi aí que notei que estava com febre e tonto novamente. Me acalmei e pensei: não quero perder por desistência. Mesmo jogando mal e jogadas erradas empatei mais uma vez. Fazia tudo com calma e isso minimiza a interferência no raciocínio por conta da febre e dor de cabeça. Pensava  quando fosse sair dali iria a uma farmácia e compraria um remédio e se fosse  o caso iria a alguma emergência médica.  


Fomos para o último jogo (percebi o medo da face do Celso porque meu deck estava bom, e ele depois me confessou), e logo de início estava muito zonzo e febril. Não muliguei (olha o erro aí!) e ainda continuei jogando errado. Ele ganhou. Deus decidiu, mas me diverti e aprendi muito. Até hoje  (e até agora) ele não sabia que jogou contra um oponente com febre e tonto. Ao ler esse artigo ele saberá. Nunca contei. Denegrir ou desmerecer a vitória  do outro não é comigo. Ele ganhou por méritos próprios, sem discussão. Foi o melhor do torneio. Mas agradeci aos Deuses e estava feliz porque fui até bem longe e poderia ter ganhado. Ninguém levou a sério o Molinari. Percebi  que menosprezar um oponente é algo que não se deve fazer. Falei com  algumas pessoas, me despedi, paguei o que devia. Fui a uma farmácia perto  da loja, tomei a medicação e corri para casa. Chegando em casa tomei banho em seguida dormi. No dia seguinte melhorei. Deus decidiu. Hoje não  arrisco mais assim, será?  


No terceiro caso foi pouco antes (ou logo bem no inicio) da pandemia do  covid-19 em março de 2020. 

 
Estava em viagem em Recife. Ia e voltava de Recife para Rio, onde moro, toda semana conforme combinado. Estava alocado por uma empresa de TI, por uma consultoria para um projeto lá. Já havia pesquisado e ligado para  uma ótima loja de Recife que é muito recomendada por lá. Era a CARCARÁ DO PARAÍSO. Por milagre, fiquei um final de semana lá, pois no meio da semana não tinha hora certa para sair da empresa do cliente. Para a viagem levei uns decks e meu livro Arena (estava relendo ele na viagem). Talvez com um pouco de esforço poderia ter ido lá antes durante a semana. Era quase sempre da empresa para o hotel e do hotel para a empresa, ou quando os donos da consultoria iam lá e me chamavam para sair para jantar comigo e as vezes(que faziam questão de pagar, ufa!). Decidi ir lá justamente no final de semana que fiquei por lá. Consegui sair cerca das 17:30 e chamei o Uber. Não conhecia muito Recife, mas me apaixonei pelo  que vi pela cidade e pelo povo. Em menos de uma hora cheguei na loja. O motorista do Uber quase se perdeu (ou quase não viu o número da loja), que  é de rua, e que divide o espaço com um restaurante ao lado.  


Entrei na loja e me vi num mundo familiar. Senti uma energia boa. Sério!!! Logo que entrei me identifiquei aos donos (havia falado com um deles ao telefone) que foram por demais receptivos. Dei nome, DCI, etc. Ia  jogar o FNM. Me sentei e fiquei meio quieto. Teria um evento de Pioneer no  dia. Sabia disso e levei meu baralho na mochila (na verdade levei na mala um baralho de T2, outro de Pauper e outro de Pioneer). Estava de Mono White midrange. Era divertido. A galera do restaurante tinha um cardápio  com sanduíches bem variados e outras coisas com alusões ao mundo nerd, heróis e etc. Existem vários restaurantes com temática nerd espalhados pelo Brasil. Falo até deles no meu romance “Comportamento Aleatório”. A garçonete assim que sentei me ofereceu o cardápio, e me disse que podia  pagar no final juntando tudo. Achei o Máximo!  


Comecei a jogar e logo no primeiro jogo fiz uma boa amizade. Contei que  estava de passagem, etc. O ambiente por mais que fosse limitado por  questões de espaço era bem organizado e a loja tinha um toque rústico que achei lindo. Ganhei a primeira por dois a zero. Mostrei meu deck ao fim para o oponente. Rimos juntos. Já me sentia parte dali. Somente ir até lá já valeu a pena!  


Até o fim da noite não ganhei mais. Foram 3 derrotas e uma vitória. Saí feliz pelo ambiente e por poder jogar (literalmente estava “seco” para jogar o Magic de mesa). Em uma das rodadas, o jogador que na época organizava o Whatsapp da loja jogou comigo e me fez uma série de perguntas. Talvez ele pensasse que o forasteiro era ladrão ou espião. Sei lá? HaHaHa!! Quem é gente boa não teme. Quando falei que conhecia o Max Minato (no meio de tantas que citei), ele relaxou, pois ele também o conhecia. Rimos e me senti também na loja. Estava em casa. Quando voltar a Recife irei lá com certeza! Pena que a pandemia mudou tudo. Acabei comendo por lá entre as rodadas. Voltei quase meia noite, estava feliz e satisfeito. Pensei em voltar lá no dia seguinte. Iria ter torneio no sábado à tarde e talvez domingo. Voltei para o hotel feliz. O prazer de jogar e de estar em um local legal não tem preço. Acabou que fui adicionado no grupo de Whatsapp da loja e estou até hoje. A  galera lá é muito legal!  


Porém no caminho do hotel, o tempo indicava que podia virar. Minha dor de cabeça %$$!!%%% me alertando de virada do tempo acionada de leve.  Ao acordar não teve jeito: tive de tomar uma medicação (dessa vez tinha  uma a mão) que passei a eventualmente usar nesses casos. Ela dava sono. Poderia vir chuva, e não queria arriscar. Fiquei no hotel e não fui de novo lá. 


Dessa vez não arrisquei. Queria ter ido mas A pandemia tinha começado a “explodir” naquele final de semana de março. Mas fiquei cheio de vontade. Por coincidência ou não aquela sexta feira era dia 13 de março de 2020 e foi  último dia que joguei Magic de mesa antes da pandemia. No dia seguinte após tomar a medicação melhorei. Deus decidiu por mim. Hoje não me arrisco mais assim. Tinha de ter cuidado. Mas aproveitei para reler o Arena que havia  levado, pois amo aquela aventura. Afinal, Garth Caolho e sua vingança (ou  justiça) sempre serão revividas por mim através de um outro olhar em um novo momento da minha vida.  


Qual é a lição? Aprendi que se conhecer é importante, tanto no jogo,  como nas suas limitações. Isso vale também para o estilo do jogo. Conhecer novas lojas, e, sobretudo aqueles que recebem alguém de fora não tem  preço. Arriscar é bom e devemos ter cuidado com a segurança e saúde. Em cada caso aprendi um pouco mais e percebi que nem tudo é jogo, mas que arriscar faz parte, mas devemos balancear os riscos. Magic é lindo, mas  existem também coisas lindas ao redor do Magic. Muitos dizem que o bom  do Magic é o “Gathering”. Dei sorte. Talvez possa ter tido sorte, e é por isso  que estou aqui contando meus casos para todos, afinal, alguns podem não ter a mesma sorte. Isso vale também para qualquer doença ou o vírus da Covid, que tem levado muitas pessoas e membros da comunidade de Magic. Digo que somos sobreviventes por conta desse maldito vírus.  


Conto algumas outras histórias no meu romance, “Comportamento  Aleatório”. Quem leu gostou e tem na Amazon e na Altabooks (aqui tem 3 capítulos free para ler em pdf). Até breve.  

 


Obrigado galera e “vamo” que “vamo”.

Leonardo da Matta Rezende Moli ( lm7k)
Leonardo Molinari é nerd, adora magic (livros e cartas), consultor de
QA/Testes, autor de vários livros técnicos, palestrante, e autor do romance
“Comportamento Aleatório” publicado pela Alta Books em fev/2021 que é

um suspense que mistura mundo o nerd (quadrinhos, lojas, magic, super-
heróis, e mais) com mundo de TI.
Comentários
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- 05/07/2021 13:50
grande artigo meu amigo. tbm sou dazantigas kk, lembro bem qdo lançou o arena, e vários outros. lia tudo deles na dragão brasil. adorei o texto. vou acompanhar mais. obrigado
(Quote)
- 21/06/2021 10:39

Obrigado. Mais estão na fila. O mais legal é que magic permeia a minha vida, seja em lições, situações e muito mais. Poucos, sabem mas poderia ter entrado em depressao em 2011. Magic me salvou. Ele não é apenas um jogo. Magic mais além. Magic ajudado crianças.... e tanta coisa que vou falar. Aqui falo mais do "gathering" do magic e minhas historias com o jogo. Viu meu artigo anterior? Abção

(Quote)
- 21/06/2021 08:50
Valeu pelo artigo, interessante ver vida, magic, família e clima se relacionando...
(Quote)
- 21/06/2021 08:10

hehehe tb

(Quote)
- 19/06/2021 19:13

Oi. Não é. Obrigado de qualquer forma. Foi um post sincero. :))

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